O Ministério da Agricultura vê mais de 80% de chance de um El Niño forte ou muito forte. O fenômeno pode reduzir colheitas e agravar a pressão sobre produtores endividados.
O Ministério da Agricultura e Pecuária acompanha com cautela as projeções climáticas que indicam alta probabilidade — superior a 80% — de ocorrência de um El Niño classificado entre forte e muito forte. De acordo com o secretário de Política Agrícola da pasta, Guilherme Campos, o fenômeno pode reduzir a produtividade e a qualidade da safra brasileira 2026/27, em um momento em que o setor já lida com margens apertadas e endividamento crescente.
Segundo o secretário, consultorias privadas e órgãos públicos mantêm, por ora, estimativas de produção recorde para a temporada atual, mas a preocupação recai sobre o ciclo seguinte. O impacto projetado não estaria necessariamente na área plantada, mas no rendimento das lavouras. Com custos em alta e juros considerados elevados mesmo nas linhas subsidiadas do Plano Safra, é possível que produtores optem por reduzir investimentos em insumos como fertilizantes e defensivos.
“O produtor rural está numa situação bem delicada. Endividamento, queda na margem dos seus produtos, aumento de custos, a taxa de juros continua sendo muito alta”, afirmou o secretário.
Campos salienta que, embora as taxas do Plano Safra tenham sido anunciadas como as melhores possíveis dentro do atual quadro fiscal, elas ainda pesam no fluxo de caixa no campo. Ele compara a condição dos agricultores atendidos pelo Mapa à daqueles vinculados ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que operam com encargos menores.
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O risco climático, destaca o secretário, decorre de um possível excesso de chuvas na Região Sul, seca em áreas do Norte e temperaturas mais elevadas em diversas partes do país. A combinação aumenta a chance de incêndios florestais e prejuízos diretos às plantações. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais reforçam o alerta sobre a intensidade do fenômeno.
“O aumento de temperatura é algo que preocupa, preocupa muito, porque pode dar margem aos incêndios que nós tivemos”, pontuou.
Para mitigar impactos, o governo estuda a ampliação do seguro rural e defende a criação de um fundo garantidor capaz de facilitar a renegociação de dívidas. Campos argumenta que a demora na liberação de recursos para apólices encarece os prêmios à medida que as previsões climáticas se confirmam.
“Tem a renegociação das dívidas rurais, uma necessidade absoluta. Precisa constituir um fundo garantidor”, disse.
O secretário reconhece que a deterioração financeira do setor não é recente e menciona que o aperto se intensificou ao longo de 2025. Embora os recursos do Plano Safra estejam disponíveis, a combinação de custos elevados, juros altos e incertezas climáticas cria um cenário de risco para a temporada 2026/27.
Especialistas do mercado sinalizam que a manutenção da produtividade exigirá medidas coordenadas entre governo, instituições financeiras e cadeia do agronegócio. Entre as propostas debatidas estão o reforço dos programas de assistência técnica e o incentivo a práticas de manejo adaptadas a eventos climáticos extremos. Até que haja maior clareza sobre a intensidade do El Niño, a recomendação geral é de planejamento financeiro conservador e busca antecipada de instrumentos de proteção.
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