Tarifaço dos EUA leva agronegócio brasileiro a buscar espaço em Angola

Robson Alves
4 Min Leitura

Trinta empresários brasileiros estão em Luanda para prospectar terras, parceiros e crédito. A missão busca abrir mercados para grãos e proteínas diante das barreiras americanas.

A elevação recente de tarifas sobre bens brasileiros pelos Estados Unidos acelerou a busca de novas rotas comerciais e colocou a África no centro da estratégia de internacionalização do agronegócio nacional. HOJE, em Luanda, capital angolana, 30 empresários do setor participam de uma agenda de negócios voltada a identificar áreas agrícolas, parceiros locais e alternativas de financiamento para projetos de produção de grãos e proteínas.

A iniciativa empresarial ocorre na esteira de medidas adotadas pelos governos de Brasil e Angola para ampliar a cooperação econômica. Um marco foi a criação, em 2025, do Programa de Investimento Produtivo Agropecuário Brasil–Angola, voltado a estruturar propostas conjuntas de cultivo, industrialização e transferência tecnológica. Desde então, missões técnicas de ambos os países avançam na definição de modelos de concessão de terras e mecanismos de crédito.

Publicidade

O projeto que está na mesa prevê um acordo bilateral de US$ 120 milhões. A proposta, segundo articuladores brasileiros, inclui a concessão inicial de 20 mil hectares nas províncias de Cuanza Norte, Uíge e Malanje, destinados principalmente a produtores de Mato Grosso e Bahia. BNDES, Fundo Soberano de Angola e Banco do Brasil devem compor a engenharia financeira, combinando linhas de investimento em infraestrutura, irrigação, armazenagem e compra de máquinas fabricadas no Brasil.

“Com o tarifaço, temos que buscar mercados. A África é uma oportunidade fantástica”, afirma o economista Roberto Gianetti da Fonseca, ex-secretário-executivo da Camex, que acompanha as relações comerciais com o continente há décadas.

Para Gianetti, vender insumos não basta; é preciso estabelecer parcerias produtivas. Ele lembra que Angola, com 37 milhões de habitantes, importa cerca de US$ 3 bilhões em alimentos ao ano e produz apenas 37% do que consome. Projeções indicam que a população poderá chegar a 70 milhões em 2050, ampliando a janela de mercado para quem investir agora em cadeias locais de valor.

Achados com desconto Publicidade

Preços vistos na Amazon em 12/08 e sujeitos a alteração. Como Associado da Amazon, recebo por compras qualificadas.

Indústrias brasileiras de máquinas agrícolas, sementes e defensivos também veem oportunidade. O modelo em negociação contempla a exportação financiada de equipamentos, a implantação de centros de distribuição de peças e a oferta de pacotes tecnológicos adaptados a solos tropicais semelhantes ao Cerrado.

A ex-ministra da Agricultura Kátia Abreu avalia que a iniciativa marca nova etapa da expansão rural brasileira além das fronteiras continentais.

“Nosso Centro-Oeste não é mais a única fronteira agrícola. A África é uma fronteira para nós”, diz a ex-ministra, ressaltando a vantagem competitiva do país em agricultura tropical.

Empresários que integram a missão desta semana consideram que a convergência entre clima, demanda crescente e experiência nacional cria terreno propício para parcerias de longo prazo. Embora alguns produtores tenham inicialmente pleiteado 500 mil hectares, o desenho atual privilegia projetos menores para demonstrar viabilidade técnica, reduzir riscos e, se bem-sucedidos, escalar gradualmente.

Além de diversificar mercados, os articuladores observam que empreendimentos conjuntos podem fortalecer a imagem internacional do agronegócio brasileiro, associando produção à transferência de conhecimento e geração de emprego local. A expansão no exterior, argumentam, não substitui a exportação de commodities, mas adiciona uma dimensão industrial que reduz a dependência de poucos compradores e mitiga efeitos de barreiras tarifárias como a imposta por Washington.

Nos próximos meses, grupos técnicos dos dois governos devem detalhar regras de concessão de terras, garantias de financiabilidade e metas de produtividade. Caso a engenharia financeira seja finalizada, as primeiras colheitas em solo angolano poderão ocorrer em safra experimental a partir de 2027.

Publicidade
Compartilhe essa Notícia
Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.
Entre no Grupo de Notícias