Antes dos multiplex, ir ao cinema reunia famílias, crianças e adultos em rituais que iam da ópera às matinês barulhentas. Memórias de frequentadores mostram como as salas de rua marcavam a vida social.
Recordar uma sessão de cinema anterior à era dos complexos multiplex significou revisitar um universo de rituais hoje praticamente extinto. As salas escuras reuniam plateias heterogêneas, embaladas por trilhas sonoras que antecediam a projeção principal. De acordo com relatos de frequentadores veteranos, era comum ouvir a abertura da ópera O Guarany, de Carlos Gomes, encerrando o burburinho antes de a cortina se abrir.
Matinês reuniam grande número de crianças; nestas ocasiões, assovios, gritos e batidas nos assentos quebravam o silêncio. À noite, nas chamadas soirées, o comportamento costumava ser mais contido. Três batidas secas de tambor anunciavam o início da sessão, as luzes mudavam de cor e a tela prateada ganhava vida.
Antes do longa-metragem, exibiam-se cinejornais nacionais e estrangeiros com notícias já ultrapassadas, pequenos documentários, trailers de futuros lançamentos e desenhos animados. O filme principal vinha na sequência, seguido pelo aguardado seriado semanal que, invariavelmente, terminava com o letreiro “Volte na próxima semana”, estimulando o retorno do público.
“Dentro e fora de um templo cinematográfico aconteciam eventos formidáveis”
Com o tempo, as casas de exibição adotaram a prática de programar dois filmes, além de episódios seriados. Posteriormente, as sessões contínuas, com entrada e saída livres, consolidaram-se como padrão mundial.
O ambiente ao redor também fazia parte da experiência. No lado de fora, colecionadores trocavam, compravam e vendiam revistas em quadrinhos. No interior, adolescentes debutantes exibiam trajes novos, namoros começavam nos cantos escuros e amizades se formavam entre intervalos e créditos. As salas funcionavam como verdadeiros espaços de socialização e difusão cultural.
A admiração pelos astros de Hollywood desempenhava papel central. Fotos promocionais enviadas por estúdios eram disputadas por fãs que sonhavam com um contato, ainda que indireto, com seus ídolos. A fantasia atravessava a tela e continuava durante o trajeto de volta para casa, povoando sonhos de jovens que transformavam personagens em referências para a vida real.
O impacto estético também marcava presença. Figurinos assinados por costureiros renomados ocultavam imperfeições físicas, enquanto joias cenográficas sugeriam luxo inatingível. Para parte do público, determinadas produções francesas e mexicanas introduziram cenas de maior atrevimento, ampliando o debate — ainda restrito — sobre sexualidade.
Títulos como “Cinema Paradiso” (1988), de Giuseppe Tornatore, reavivaram na tela grande essa atmosfera nostálgica, mas as lembranças descritas por antigos frequentadores indicam que, para além da ficção, cada cidade possuía o seu próprio “paraíso” cinematográfico. O resultado foi um legado afetivo que persiste, mesmo na era do streaming, como referência de convivência coletiva em torno da sétima arte.
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