O julgamento dos três policiais militares acusados de matar o delator Gritzbach começou com depoimento emocionante. A viúva do motorista inocente revelou que o marido tentava falar com ela no momento dos disparos.
O Tribunal do Júri de Guarulhos iniciou, em 22/06/2026, a análise do chamado Caso Gritzbach, no qual três policiais militares respondem por homicídio duplamente qualificado. O primeiro dia de sessão foi marcado pelo depoimento de Simone Novais, viúva do motorista de aplicativo Celso Araujo Sampaio de Novais, morto a tiros de fuzil em novembro de 2024 durante atentado que também vitimou o empresário Vinícius Gritzbach no Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Diante dos jurados, Simone relembrou que estava casada havia 21 anos e que Celso tentava contatá-la no instante do crime. Ela não atendeu à ligação, mas, minutos depois, recebeu notícia de um vídeo gravado pelo marido já dentro da ambulância.
“Levei um tiro, estou na ambulância”,
registrou Celso, segundo relato da viúva. O registro, divulgado pela própria família às autoridades, foi confirmado nos autos como a última manifestação do motorista.
O casal tinha três filhos — de 22, 15 e 5 anos. O primogênito reconheceu o pai ao assistir às imagens do tiroteio que circulavam na televisão. Simone destacou a dedicação de Celso ao trabalho: ele rodava de 12 a 15 horas por dia e considerava o aeroporto um local seguro em razão do efetivo policial. Na data do atentado, o motorista comemorou ter alcançado a meta financeira que cobriria a próxima prestação do carro da família, mas decidiu permanecer no ponto para garantir uma refeição japonesa solicitada pelo filho.
“Amo muito vocês”,
foram as últimas palavras dirigidas aos filhos, segundo a depoente. Ela relatou que, após a morte, a família perdeu seu principal provedor e enfrenta dificuldades emocionais e financeiras, sobretudo porque o adolescente de 15 anos permanece nas fases iniciais do luto.
Sentam-se no banco dos réus os policiais militares Denis Antonio Martins e Ruan Silva Rodrigues, apontados como autores dos disparos, além de Fernando Genauro da Silva, acusado de conduzir o veículo utilizado na fuga. Ao todo, 21 testemunhas estão arroladas — nove de acusação, uma comum entre Ministério Público (MP) e defesa de Juan, e as demais divididas entre as defesas dos três réus.
O rito do júri segue o procedimento ordinário: sorteio de 25 candidatos, seleção de sete jurados e leitura das peças principais. Após as oitivas e interrogatórios, acusação e defesa dispõem de até duas horas e meia, cada, para sustentar suas teses, com possibilidade de réplica e tréplica proporcionais.
Na véspera do julgamento, as defesas de Denis e Ruan anexaram parecer técnico que contesta a perícia genética realizada no automóvel VW Gol apreendido perto do aeroporto. A peça menciona alegadas falhas procedimentais na coleta de vestígios biológicos.
“O Parecer Técnico comprova, de forma científica e inequívoca, os graves erros cometidos durante a investigação, falhas que resultaram na indevida acusação de pessoas inocentes”,
afirmou a defesa em nota juntada ao processo. Já o Ministério Público rebateu:
“A defesa apresentou laudo particular um ano e sete meses após o crime, questionando o resultado imparcial produzido por órgão oficial, autônomo e independente.”
Com o depoimento da viúva e a controvérsia pericial, o Conselho de Sentença inicia sua missão de avaliar a materialidade do crime e a responsabilidade de cada acusado. O magistrado responsável limitar-se-á a conduzir a sessão, dosar eventual pena e redigir a sentença após a votação secreta dos quesitos pelos jurados.
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