Maioria dos brasileiros não lê livros, aponta pesquisa nacional

Cláudio Vasconcelos
4 Min Leitura

O Brasil passou a ter mais não-leitores do que leitores pela primeira vez na série histórica. Em cinco anos, cerca de 6,7 milhões de pessoas deixaram o hábito de ler.

O hábito de leitura apresentou retração expressiva no Brasil nos últimos cinco anos. Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, conduzida pelo Ipec com 5.504 participantes de 5 anos ou mais em 208 municípios, mostram que, entre 2019 e 2024, aproximadamente 6,7 milhões de brasileiros deixaram de se identificar como leitores. Pela primeira vez na série histórica do estudo, a proporção de não-leitores superou a de leitores: 53% dos entrevistados afirmaram não ter lido sequer parte de um livro no período investigado, contra 47% que relataram alguma leitura.

A queda aparece não apenas na quantidade de leitores, mas também na intensidade do consumo. Apenas 27% dos respondentes disseram ter concluído ao menos um livro no intervalo analisado. Quando o recorte se concentra nos alfabetizados, somente 7% declararam ler literatura por vontade própria todos ou quase todos os dias, enquanto 11% praticaram o hábito ao menos uma vez por semana. Já 62% confessaram não ler literatura de forma espontânea.

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O número médio de obras literárias lidas por prazer ficou em 1,17 por ano, considerando toda a população. O desinteresse cresce: em 2024, 29% afirmaram não gostar de ler; em 2019, essa fatia era de 22%.

Embora os livros estejam sendo menos procurados, o contato com textos não necessariamente diminuiu. Smartphones e redes sociais expõem o usuário a mensagens curtas, postagens, legendas e notificações em volume crescente. A questão, avalia o estudo, recai sobre a qualidade e a profundidade da leitura, que se fragmenta em meio a estímulos visuais e sonoros.

O fenômeno não se limita ao Brasil. Um artigo da jornalista Rose Horowitch, publicado na revista norte-americana The Atlantic, analisou dados que sugerem tendência semelhante nos Estados Unidos. Em 2022, menos da metade dos adultos norte-americanos disse ter lido pelo menos um livro; apenas 38% leram um romance ou conto.

“Menos da metade dos adultos norte-americanos declarou ter lido pelo menos um livro em 2022.”

Nos Estados Unidos, a proporção de pessoas que leem por prazer em um dia qualquer recuou de 28%, em 2004, para 16%, em 2023. Especialistas ouvidos pela publicação apontam que o avanço de conteúdos curtos, a popularização de vídeos rápidos e a chegada de ferramentas de inteligência artificial — capazes de resumir ou gerar textos — influenciam a transformação do comportamento leitor.

Historicamente, a escrita sustenta o registro de ideias complexas e a construção de raciocínios extensos, dispensando a oralidade ou a memória como únicas formas de transmissão. A pesquisa brasileira alerta que a migração para leituras fragmentadas pode reduzir a capacidade de concentração e limitar a formação de pensamento crítico, pontos que ainda carecem de investigação mais aprofundada.

Para os autores do estudo, compreender as causas da perda de leitores é passo fundamental para formular políticas públicas capazes de estimular o contato consistente com livros. As respostas passam por acesso a bibliotecas, incentivo à leitura desde a infância e valorização do livro impresso e digital como ferramenta de desenvolvimento cultural e intelectual.

A discussão sobre uma possível era “pós-literária” permanece em aberto: a tecnologia ameaça os livros ou redefine a maneira como lemos? Enquanto não há consenso, os números sinalizam que reconstruir o vínculo da população com a leitura tornou-se um desafio central para educadores, gestores e sociedade.

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Claudio Vasconcelos é jornalista veterano com vasta experiência em coberturas políticas e esportivas em Sergipe. Natural de Canindé de São Francisco, construiu sua trajetória na imprensa sergipana com foco em jornalismo de raiz, privilegiando apuração rigorosa e compromisso com a informação. Apaixonado pelo futebol e pelos bastidores da política, traz perspectiva experiente e bem fundamentada para cada matéria.
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