Bruxelas recebeu representantes do regime talibã para negociar expulsões em massa. Quinze países europeus participaram das tratativas sobre migrantes ilegais e criminosos condenados.
A União Europeia (UE) recebeu em Bruxelas representantes do Talibã, atualmente no poder no Afeganistão, para uma reunião dedicada a temas migratórios e questões consulares. O encontro reuniu delegados de 15 Estados-Membros e foi liderado pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores afegão, Abdu Qahar Balkhi.
De acordo com as autoridades europeias, a principal pauta foi a repatriação de migrantes afegãos em situação irregular, em especial de pessoas consideradas ameaça à segurança pública ou já condenadas por crimes nos países do bloco. Dados oficiais apontam que, desde 2013, quase um milhão de afegãos solicitaram asilo na UE, e aproximadamente metade recebeu parecer favorável. A taxa de retorno dos que tiveram o pedido negado permanece baixa, o que representa desafio logístico e político para os governos europeus.
A reunião surge em meio a discussões internas na Europa sobre políticas migratórias mais rígidas e procedimentos de deportação acelerados. Governos nacionais afirmam que a falta de mecanismos eficientes para devolução de cidadãos afegãos pressiona sistemas de abrigo, segurança e finanças públicas. Por outro lado, organizações de direitos humanos expressam receio de que o diálogo abra espaço para reconhecimento tácito do regime talibã.
“É preocupante. Muitas pessoas podem entender esse gesto como apoio a um governo acusado de graves violações de direitos humanos”, afirmou a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai.
Parlamentares europeus de diferentes espectros políticos também questionaram a iniciativa, alegando que a presença de enviados do Talibã em solo europeu pode enfraquecer a pressão internacional por mudanças internas no Afeganistão, sobretudo no que diz respeito às restrições impostas a mulheres e meninas.
Fontes diplomáticas insistem que o contato não representa reconhecimento oficial. Segundo essas fontes, a UE mantém a posição de que qualquer engajamento com as autoridades afegãs deve permanecer “estritamente funcional”, limitado a assuntos humanitários e consulares. Ainda assim, analistas percebem o encontro como sinal de ajuste de estratégia diante da crise humanitária afegã e do fluxo migratório contínuo.
Especialistas em políticas de asilo observam que, sem cooperação mínima com Cabul, deportações tornam-se virtualmente inviáveis, criando impasse para Estados-Membros que enfrentam pressão eleitoral por controles mais firmes nas fronteiras. Ao mesmo tempo, críticos alertam que concessões precipitadas podem reduzir a capacidade de exigir avanços em direitos civis dentro do Afeganistão.
O debate sobre segurança, direitos humanos e migração permanece aberto. Enquanto a UE busca um equilíbrio entre a gestão de fronteiras e a salvaguarda de princípios democráticos, o episódio ilustra os dilemas diplomáticos que se agravam desde a retomada do poder pelo Talibã em 2021.

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