Donald Trump abandonou a proposta de taxar navios no Estreito de Ormuz um dia após anunciá-la. Para especialista da FGV, o movimento não é impulsivo: é método.
O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou atrás na proposta de cobrar uma tarifa de 20% dos navios que transitassem pelo Estreito de Ormuz. O recuo, anunciado no dia seguinte à proposta inicial, abriu espaço para questionamentos sobre a estratégia que orienta suas decisões em política internacional.
Para o professor Daniel Rio Tinto, da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), a mudança de rumo se enquadra em um método já conhecido do republicano. Em entrevista concedida em 14/07, o especialista descreveu a prática como uma política de “máxima pressão”, aplicada tanto a adversários quanto a parceiros.
“Trump parece atuar com a ideia de que aumentar a pressão é a melhor forma de obter concessões ou conduzir negociações em termos favoráveis”, avaliou Rio Tinto.
Segundo o pesquisador, o padrão se repete em diferentes temas, do Oriente Médio às disputas comerciais com a China. O princípio seria lançar propostas potencialmente disruptivas — como tarifas, sanções ou exercícios militares — para forçar a outra parte a retornar à mesa de negociação.
O episódio envolvendo o Irã ilustra esse movimento. A proposta original de taxar navios que cruzam o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais sensíveis para o comércio global de petróleo, provocou reação imediata em Teerã e nos parceiros europeus. Quando o governo norte-americano revogou a ideia, manteve-se a incerteza sobre os próximos passos, mas ficou evidente que o simples anúncio já alterou o cálculo estratégico dos atores envolvidos.
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Rio Tinto lembrou que o uso do blefe é prática comum na diplomacia. Contudo, destaca que a atual conjuntura regional torna o risco de erro mais elevado. “O equilíbrio no Oriente Médio é tênue. Qualquer medida que frustre um dos lados pode levá-lo a rever compromissos”, disse.
“Sempre existe a possibilidade de Washington adotar medidas que gerem consequências mais graves do que aceitar negociar”, completou o professor.
Na avaliação do especialista, a abordagem baseada em ameaça tácita oferece vantagens de curto prazo, mas pode dificultar a construção de acordos duradouros. “O recuo pode evitar uma escalada imediata, mas, ao mesmo tempo, sinaliza que acordos anteriores podem ser descartados sem aviso”, analisou.
Enquanto isso, o Irã mantém a estratégia de resistir às pressões, alternando avanços no programa nuclear e sinais de disposição para diálogo. A dinâmica apresenta incertezas para parceiros comerciais que dependem do fluxo de petróleo pela região, especialmente em um mercado já afetado por oscilações de oferta.
Observadores internacionais apontam que a mudança de postura do governo norte-americano visa, também, reforçar a mensagem de que eventuais sanções podem ser ampliadas a outros atores, como grupos alinhados a Teerã. A simples perspectiva de novas penalidades já influencia decisões de investimento e rota de navios petroleiros.
Para Rio Tinto, o desfecho dependerá da disposição de ambos os lados em transformar ameaças em avanços diplomáticos. “Trata-se de uma negociação delicada, em que tanto poder militar quanto pressões econômicas funcionam como instrumentos para moldar o resultado”, concluiu.
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