Washington deixa claro: quem quer segurança americana paga com alinhamento total à agenda de Trump. Especialista militar alerta que pressão sobre a OTAN exige submissão estratégica dos aliados europeus.
A postura do ex-presidente norte-americano Donald Trump diante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) continua a provocar tensões na política de defesa europeia. Em análise concedida nesta quarta-feira (24) ao programa WW, o professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Sandro Teixeira Moita, afirmou que Washington sinaliza aos aliados que a proteção oferecida pelos Estados Unidos tem um preço claro – o alinhamento irrestrito à estratégia norte-americana.
“Em vários momentos ele lembrava que compromissos assumidos a partir de 2017 precisavam ser honrados e que a conta dessa segurança passa pelo aumento dos gastos europeus em defesa”, explicou Moita.
Segundo o especialista, a ênfase de Trump em cobrar investimentos não é novidade, mas ganha força à medida que dirigentes europeus seguem debatendo, sem consenso, como elevar seus orçamentos militares ao patamar mínimo de 2% do PIB, meta estabelecida pela Aliança. O professor ressalta que, para Trump, parceiros europeus não são vistos como sócios estratégicos, mas sim como governos que precisam ser persuadidos – ou pressionados – a adotar a agenda de Washington.
“Os países acabam tratados quase como vassalos da vontade do grupo que hoje influencia a política externa norte-americana”, avaliou Moita.
Ele também chamou atenção para o perfil de nomes que despontam como formadores de opinião no Pentágono, entre eles Pete Hegseth, o general reformado Anthony Tata e o analista Elbridge Colby, todos favoráveis a reduzir o foco na Europa e priorizar a contenção da China no Indo-Pacífico.
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Moita aponta ainda uma crise interna no comando militar dos EUA. O general Christopher Donahue, comandante supremo aliado na Europa, solicitou passagem à reserva, decisão vista como indicativo de divergências sobre o apoio à Ucrânia.
“Ele é um dos mais vocais defensores de Kiev dentro do Pentágono, e sua saída expõe as prioridades do governo”, observou o professor.
Outro episódio citado foi a revelação, por Trump, de que a Itália autorizou mais de 500 voos de aeronaves norte-americanas a partir de bases italianas durante operações contra o Irã.
“A primeira-ministra havia dito que eram missões logísticas; depois dessa informação, o debate político em Roma ficou ainda mais acirrado”, lembrou Moita.
Para o analista, a dificuldade europeia em construir autonomia estratégica, discutida desde 2017, abre margem para novas exigências de Washington. Ele mencionou que, segundo o primeiro-ministro holandês Mark Rutte, os membros da OTAN já destinaram cerca de US$ 1,2 trilhão ao setor de defesa desde o primeiro mandato de Trump.
“Desse montante, US$ 300 bilhões foram diretamente para a indústria militar dos Estados Unidos”, reforçou Moita.
Na avaliação do especialista, enquanto a União Europeia não definir mecanismos próprios de segurança coletiva, a Casa Branca continuará a usar a dependência militar do continente como instrumento de barganha política.
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