Após o juro dos Treasuries de 30 anos alcançar 5,34%, Washington elevará para ao menos US$ 4 bilhões as recompras por operação. A medida busca conter tensões no mercado de dívida.
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira (19/08/2026) que dobrará o valor das operações de recompra de títulos com cupom nominal e vencimentos mais extensos. O limite passará de US$ 2 bilhões para, no mínimo, US$ 4 bilhões por intervenção, medida que valerá entre 9 de setembro e 4 de novembro para papéis nos intervalos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos.
A decisão veio na sequência de uma sessão de fortes vendas no mercado secundário, na qual o rendimento (yield) do Treasury de 30 anos atingiu 5,34% na terça-feira — o nível mais alto desde 2007. O movimento foi atribuído por agentes financeiros a temores de escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, além de preocupações crescentes com o quadro fiscal norte-americano.
Apesar de o Tesouro já ter efetuado uma recompra programada de US$ 2 bilhões na véspera, a pressão persistiu. Nesta quarta-feira, depois do novo anúncio, o yield do papel de 30 anos recuou para 5,187%, registrando a maior queda diária desde o fim de junho, mas ainda permanecendo em patamar historicamente elevado.
Em comunicado, o órgão explicou que a ampliação pretende reduzir a fricção nos pontos mais sensíveis da curva de juros de longo prazo.
“Esse aumento no volume das operações de recompra reflete o desejo do Tesouro de oferecer maior apoio à liquidez nos setores nominais de prazo mais longo, onde há um forte e consistente apoio dos participantes do mercado, conforme evidenciado pelo volume significativo de ofertas de alta qualidade que o Tesouro recebe rotineiramente em operações de recompra de títulos de prazo mais longo”,
detalhou a autoridade.
As recompras — também chamadas buybacks — consistem na aquisição, pelo governo, de lotes de títulos emitidos em anos anteriores que hoje têm menor liquidez. Ao trocar esses papéis por caixa, o Tesouro melhora a negociação dos Treasuries mais antigos sem alterar a quantidade total de dívida em circulação, ajudando formadores de mercado a gerenciar estoques e riscos.
A estratégia não é nova. Há vários anos o governo norte-americano realiza calendários regulares de recompra para suavizar picos de volatilidade. Contudo, a aceleração do déficit público e a expectativa de emissões recordes em 2024 e 2025 elevaram as apostas de que seriam necessárias ações adicionais para ancorar a curva.
Analistas ouvidos pelo mercado financeiro avaliam que a eficácia dependerá da evolução de dois fatores: a política monetária do Federal Reserve e o ambiente geopolítico. Caso os juros básicos nos Estados Unidos permaneçam altos por mais tempo ou o conflito no Oriente Médio se aprofunde, a demanda por Treasuries de prazo mais longo pode continuar pressionada, exigindo novas intervenções.
O Tesouro confirmou que manterá o cronograma mensal de leilões primários inalterado por ora. A próxima verificação de necessidades de financiamento ocorrerá no início de novembro, quando serão avaliadas novamente as condições de liquidez e o comportamento dos prêmios de risco.
Investidores monitoram se a medida reduzirá a dispersão entre os diferentes vencimentos — fator crucial para precificar empréstimos, hipotecas e até mesmo dívidas soberanas de outros países, dado que o rendimento dos Treasuries serve de referência global. Qualquer persistência de volatilidade pode ter efeitos cascata sobre moedas, bolsas e preços de commodities.
Com a iniciativa, o governo dos Estados Unidos sinalizou disposição para agir diante de turbulências, mas continua sob escrutínio quanto à sustentabilidade fiscal de médio prazo. Agentes do mercado aguardam dados de arrecadação e gastos federais previstos para serem divulgados ainda em agosto, bem como as atas da última reunião do Federal Reserve, para ajustar projeções de juros e inflação.
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