A promessa de comprar mais títulos longos americanos derrubou os rendimentos nos EUA. Na B3, os contratos de DI recuam, sinalizando alívio para o custo do crédito brasileiro.
Os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) negociados na B3 registram queda na manhã desta quarta-feira (19/08), acompanhando o alívio nos rendimentos dos títulos norte-americanos. O movimento foi desencadeado depois que o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos informou que pretende ao menos dobrar, nos próximos meses, o volume de recompra de papéis de longo prazo – entre 10 e 30 anos. A sinalização foi lida pelo mercado como tentativa de conter a escalada dos juros nos Estados Unidos, que se encontram nos níveis mais altos em mais de uma década na extremidade longa da curva.
Pouco depois das 11h20, a taxa do DI para janeiro de 2027 recuava de 13,749% para 13,725%; o vencimento de janeiro de 2029 passava de 14,336% para 14,185%; e o contrato para janeiro de 2031 cedia de 14,643% para 14,490%. Mesmo modestas, as variações apontam reprecificação das expectativas de inflação e de política monetária no Brasil diante do novo quadro externo.
O alívio, porém, encontra limitações. Investidores aguardam a divulgação, às 15h (horário de Brasília), da ata da reunião de julho do Federal Reserve. O documento deve detalhar o debate interno sobre o ciclo de juros e orientar apostas sobre a trajetória da taxa básica norte-americana.
Além disso, a tensão no Oriente Médio segue no radar. O petróleo tipo Brent sobe pela quarta sessão consecutiva e é negociado acima de US$ 91 por barril, impulsionado pelo temor de corte na oferta. Os Emirados Árabes Unidos suspenderam comércio e transações financeiras com o Irã, medida que se soma aos ataques aéreos confirmados por Israel a um aeroporto na Síria. Teerã, por sua vez, advertiu governos locais a não facilitarem ações militares dos Estados Unidos. Esse ambiente de insegurança reforça o risco de inflação global via energia e pode voltar a pressionar as curvas de juros.
Historicamente, a oscilação dos DIs reflete tanto fatores domésticos – como a percepção sobre a política fiscal e a trajetória da Selic – quanto eventos internacionais. Nas últimas semanas, as expectativas em torno de um novo ciclo de corte de juros no Brasil vinham sustentando a queda das taxas. O anúncio do Tesouro americano acrescenta um elemento externo de apoio, mas a volatilidade geopolítica impede um movimento mais forte.
Também pesa na equação a cautela pré-ata do Fed. Caso o documento traga indícios de que o banco central norte-americano considera manter juros elevados por período prolongado, parte do alívio observado pode ser revertida. Por outro lado, sinais de maior preocupação da autoridade monetária com a atividade poderiam consolidar a tendência de baixa nas curvas brasileira e global.
Para os próximos dias, analistas apontam três variáveis principais: a evolução do conflito no Oriente Médio, novos dados sobre estoques de petróleo e declarações de dirigentes do Fed. No âmbito local, a atenção se volta à tramitação de pautas fiscais no Congresso e aos indicadores de inflação de agosto, que devem calibrar as apostas para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) marcada para setembro.
Mesmo em cenário de juros mais altos no exterior, economistas avaliam que o Banco Central brasileiro ainda pode cortar a Selic gradual e cautelosamente, caso a desinflação doméstica prossiga. A precificação atual dos DIs sugere, para parte do mercado, um corte de 0,25 ponto percentual na próxima decisão, enquanto outra fatia mantém a projeção de 0,5 ponto.
Os investidores, portanto, seguem equilibrando o alento vindo de Washington com a incerteza gerada pelos conflitos no Golfo Pérsico. A combinação desses fatores definirá, ao longo do dia, se o recuo dos juros futuros se manterá ou se dará lugar a nova rodada de correções.
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