Notas de 2020 apontam que Fauci estimava a letalidade da Covid entre 0,2% e 0,3%. O dado será debatido em audiência no Senado americano.
Anotações pessoais registradas pelo infectologista Anthony Fauci em 8 de fevereiro de 2020 indicam que, naquele momento, ele avaliava a taxa de letalidade da Covid-19 entre 0,2% e 0,3%. O material veio a público recentemente e deverá ser discutido em audiência no Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado dos Estados Unidos na próxima quarta-feira, 29.
Fauci, hoje com 85 anos, estava à frente do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) durante o início da pandemia. No depoimento prestado ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes em 11 de março de 2020, ele declarou que a taxa de mortalidade então conhecida era de aproximadamente 3% e sugeriu que, ao incluir casos leves ou assintomáticos, o índice poderia cair para algo em torno de 1%, cerca de dez vezes acima da gripe sazonal. As anotações agora divulgadas mostram estimativas consideravelmente mais baixas.
“Achamos que o comportamento é semelhante ao de uma gripe forte; a subnotificação pode ser grande, colocando a letalidade real entre 0,2% e 0,3%”, registra o diário ao relatar conversa entre Fauci e Tom Frieden, ex-diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).
Na data dessa anotação, os números compilados pelo médico registravam 34.687 casos confirmados e 724 mortes, porcentual superior a 2% dentro da contagem oficial. Segundo os documentos, a diferença se justificaria pela expectativa de que muitos casos não fossem detectados, o que inflaria a taxa calculada a partir apenas de testes positivos.
A divulgação dos registros reacendeu questionamentos sobre a condução da política de saúde no primeiro ano da pandemia e sobre a comunicação de riscos ao público e aos parlamentares. Críticos afirmam que a discrepância entre o diário e o testemunho formal pode ter influenciado medidas de restrição adotadas à época. Defensores de Fauci argumentam que o cenário epidemiológico mudava rapidamente e que projeções distintas eram comuns nos primeiros meses de 2020.
Durante a audiência agendada para o dia 29, senadores devem buscar esclarecimentos sobre a origem das estimativas apresentadas a portas fechadas e sobre o critério utilizado para apresentar números mais altos em audiência pública. Também há expectativa de que surjam perguntas a respeito de pesquisas que envolvem o laboratório de Wuhan, tema que tem sido levantado com frequência por parlamentares.
Fauci tem afirmado que sempre apoiou decisões baseadas nos dados disponíveis e que, ao longo da crise sanitária, comunicou riscos de forma transparente. O comparecimento ao Senado oferecerá aos legisladores a oportunidade de confrontar as novas informações com depoimentos anteriores e avaliar eventuais impactos na formulação de políticas de saúde.

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