Rombo de R$ 6 bi ameaça mercado de energia e já derruba 11 empresas

Robson Alves
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Quatro comercializadoras colapsaram entre abril e maio. Dívidas bilionárias e recuperações judiciais revelam uma crise silenciosa que pode encarecer a conta de luz do brasileiro.

O mercado livre de energia enfrenta a pior turbulência dos últimos anos, com pelo menos 11 comercializadoras acumulando dívidas que ultrapassam R$ 6 bilhões. O levantamento, obtido por fontes do setor, aponta que as empresas mais afetadas lidam com processos de recuperação judicial ou extrajudicial e buscam renegociar contratos em meio a forte pressão financeira.

Entre abril e maio, quatro empresas entraram em colapso. A 2W Ecobank pediu recuperação judicial para equacionar um passivo de R$ 2,39 bilhões. A Tradener, pioneira na intermediação de energia, soma débitos próximos de R$ 1,7 bilhão. A Electra, por sua vez, protocolou pedido semelhante, com dívidas de cerca de R$ 1,3 bilhão. Já a Gold optou por recuperação extrajudicial a fim de renegociar mais de R$ 1 bilhão em compromissos.

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Analistas atribuem o cenário adverso a uma combinação de fatores. A volatilidade dos preços no mercado de curto prazo elevou o risco das operações e tornou insuficientes os valores recebidos em contratos celebrados anteriormente. Exigências maiores de garantias financeiras também pressionaram o fluxo de caixa das comercializadoras.

Eventos climáticos entre 2023 e 2025 reduziram a oferta de geração hidrelétrica, historicamente a fonte de menor custo do sistema elétrico brasileiro. Ao mesmo tempo, restrições temporárias à geração de energia renovável limitaram alternativas e ampliaram a oscilação de preços.

“Essas empresas possuem mesas de trading e assumem posições compradas ou vendidas na expectativa de alta ou queda dos preços. Quando o mercado caminhou na direção oposta, muitas não conseguiram absorver os prejuízos”, relatou Guilherme Moya, cofundador da consultoria Ynova.

Outro ponto de tensão foi a mudança no cálculo do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), que passou a ser determinado hora a hora. Segundo a Electra, a novidade aumentou a volatilidade e reduziu a liquidez do mercado, dificultando a formação de preços de referência.

No modelo de mercado livre, grandes consumidores podem negociar diretamente com geradoras e comercializadoras, definindo livremente preços, prazos e volumes. O formato atraiu empresas interessadas em reduzir custos e obter flexibilidade contratual; contudo, também expôs participantes a oscilações bruscas e à necessidade de manter garantias robustas para honrar compromissos.

Com o avanço dos pedidos de recuperação, o Ministério de Minas e Energia informou que acompanha a evolução do quadro por meio do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico. Até o momento, os indicadores avaliados pela pasta não apontam risco sistêmico de desabastecimento ou de efeito dominó em toda a cadeia.

Paralelamente, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estudam medidas para reforçar as exigências de garantias financeiras e mitigar novos episódios de inadimplência. Entre as propostas discutidas estão a revisão dos limites de exposição das comercializadoras e a criação de mecanismos de liquidez para momentos de estresse.

Especialistas alertam que, embora o consumidor final ainda não sinta impacto direto, o prolongamento da crise pode influenciar custos futuros e atrasar a abertura total do mercado previsto para esta década. A priorização de regras claras, transparência na formação de preços e controle de riscos é vista como condição essencial para restaurar a confiança e assegurar a expansão sustentável do segmento.

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Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.
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