Instituto de previdência municipal aplicou R$ 98 milhões no Banco Master. Meses depois, servidores ganharam acesso a crédito consignado do Digimais, do mesmo grupo econômico.
A Prefeitura de São Roque, município do interior paulista, autorizou que servidores ativos, aposentados e pensionistas contratem empréstimos consignados com o Banco Digimais. A decisão foi formalizada em outubro de 2025, por meio de contrato com validade de um ano, permitindo que as parcelas sejam descontadas diretamente na folha de pagamento.
A medida foi adotada pouco mais de doze meses depois de o Instituto de Previdência dos Servidores Municipais aplicar R$ 98 milhões no Banco Master, instituição do mesmo grupo econômico. O montante corresponde a parte significativa dos recursos previdenciários do funcionalismo local.
Enquanto a prefeitura mantinha o acordo vigente, o Digimais se tornou alvo de investigação da Polícia Federal (PF). Em operação que cumpriu nove mandados de busca e apreensão, a corporação apura suspeitas de crimes contra o sistema financeiro nacional, incluindo eventual maquiagem de balanços para ocultar dificuldades de capitalização.
“O Digimais afirma colaborar com as autoridades competentes e reitera que não há irregularidades em suas práticas contábeis”, informou o banco em nota.
Relatórios técnicos produzidos em 2024 e 2025 indicam que o patrimônio da instituição teria sido corroído, exigindo sucessivos aportes de capital do controlador, o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da Record TV. Embora não tenha sido alvo direto das buscas por residir fora do país, Macedo teve o sigilo bancário quebrado e bens bloqueados por decisão judicial.
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Além de São Roque, ao menos dez municípios paulistas — entre eles Guarulhos, São José do Rio Preto, São Sebastião, Ubatuba, Praia Grande, Pindamonhangaba e Tupã — também liberaram empréstimos consignados pelo Digimais. A Polícia Militar do Estado de São Paulo aderiu à modalidade um mês antes da prefeitura são-roquense.
O histórico de questionamentos se estende a 2025, quando o Banco Central vetou a venda do Digimais ao BlueBank, ligado ao empresário Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master. O BC concluiu que a operação “não atendia aos requisitos prudenciais mínimos”, decisão divulgada meses antes da assinatura do contrato com São Roque.
No âmbito local, membros da Câmara de Vereadores cobram explicações sobre o processo de credenciamento do Digimais. Há questionamentos sobre critérios de escolha da instituição financeira, especialmente diante das notícias de investigação federal e da exposição dos recursos previdenciários aplicados no Master.
A gestão municipal sustenta que a liberação do consignado atende a demanda de servidores por taxas de juros mais baixas em comparação às praticadas no mercado tradicional. Contudo, sindicatos representativos afirmam monitorar a situação para garantir que possíveis problemas de solvência do banco não afetem diretamente salários e benefícios.
Até o momento, não há registro de inadimplência nas operações contratadas pelos servidores. Mesmo assim, especialistas em direito previdenciário alertam que o episódio reforça a necessidade de controles mais rigorosos sobre decisões de investimento e convênios financeiros firmados por prefeituras.
Enquanto a investigação segue em curso, a expectativa é de que o contrato expire em outubro de 2026. Qualquer renovação terá de ser precedida de nova análise de risco por parte do Executivo municipal e de parecer técnico do instituto de previdência, conforme prevê a legislação.
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