A Operação Miragem mira o Banco Digimais por inflação artificial de ativos para ocultar insolvência. CDBs com até 110% do CDI atraíram vítimas enquanto o esquema avançava.
A Polícia Federal deflagrou, nesta terça-feira (23), a Operação Miragem para apurar indícios de gestão fraudulenta no Banco Digimais. De acordo com os investigadores, a instituição teria inflado artificialmente o valor de seus ativos a fim de mascarar situação de possível insolvência, afetando investidores de varejo, reguladores e o sistema de garantias de crédito.
Segundo a PF, o esquema ganhou força entre 2023 e 2024, quando o banco passou a emitir Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidade superior a 110% do CDI. O movimento teria atraído clientes pela promessa de retornos elevados, mas, na prática, buscava contornar limites prudenciais, como o Índice de Basileia, que mede a solidez do capital próprio de uma instituição financeira.
“A partir dos anos de 2023 e 2024, o banco começou a emitir CDBs com taxas superiores a 110% do CDI, o que, atrelado à posterior liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025, evidenciou uma exposição de aproximadamente R$ 600 milhões do Banco Digimais a carteiras de crédito da instituição liquidada”, aponta a PF.
Documentos apreendidos indicam que parte relevante desses ativos estava ligada ao extinto Banco Master, cujo colapso expôs fragilidades contábeis. Ao todo, o Digimais teria ficado exposto a cerca de R$ 600 milhões em carteiras de crédito de qualidade contestada, lastro duvidoso e documentação irregular.
A Corretora ID, responsável pela administração de fundos ligados ao Digimais, também é alvo da operação. Investigadores afirmam que os fundos teriam recebido ativos superavaliados, inflando o patrimônio declarado e possibilitando nova emissão de títulos de captação.
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“Os fundos são administrados por essa corretora; ela sobrevaloriza os ativos e o banco registra cotas que valem três, quatro ou dez vezes mais, criando a falsa impressão de forte capitalização”, explica o economista Ricardo Hammoud, da Fundação Getulio Vargas.
Para Hammoud, a oferta de CDBs com juros muito acima do mercado ganhou adesão de pequenos poupadores por causa da cobertura de até R$ 250 mil garantida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O professor alerta, contudo, que a prática eleva o risco sistêmico:
“O FGC é essencial para preservar a confiança no sistema, mas incentiva aplicações em bancos arriscados que pagam taxas exageradas”, afirma.
Entre os crimes investigados estão gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e operações de crédito proibidas, previstos na Lei 7.492/1986. Caso as irregularidades sejam confirmadas, dirigentes e administradores podem responder civil e criminalmente.
Representantes do partido Republicanos, citado em mandados de busca, disseram que a legenda “não tem relação” com a gestão do banco. A investigação segue em sigilo, e o Banco Digimais ainda não comentou publicamente as acusações.
A Operação Miragem inclui mandados de busca e apreensão, bloqueio de bens e análise de documentos para identificar a extensão das perdas potenciais. O Banco Central colabora com o compartilhamento de informações regulatórias. Novas diligências estão previstas para as próximas semanas, à medida que peritos avaliam a real qualidade das carteiras de crédito envolvidas.
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