Tensões no Estreito de Ormuz encarecem insumos e travam rotas vitais para o agro. Com 70% dos fertilizantes vindos de fora, o Brasil corre contra o tempo para proteger a próxima safra.
O aumento das tensões no Estreito de Ormuz, importante corredor naval que liga o Golfo Pérsico ao restante do mundo, vem alterando de forma significativa o mercado internacional de fertilizantes e já gera impactos concretos para a agricultura brasileira. Responsável por importar cerca de 70% dos fertilizantes que utiliza, o Brasil sente diretamente os efeitos do bloqueio parcial das rotas marítimas que atravessam a região.
Dois insumos estratégicos concentram a maior parte da preocupação: os fertilizantes nitrogenados, cuja origem está fortemente ligada aos países do entorno de Ormuz, e o enxofre, componente essencial para a indústria de fosfatados. Estimativas de analistas do setor indicam que a região do Golfo fornece aproximadamente 80% do nitrogênio e 45% do enxofre consumidos pelos produtores brasileiros.
“Os fertilizantes nitrogenados não chegam porque boa parte deles é produzida nos países vizinhos a Ormuz, e o enxofre, usado na produção de fosfatados, também enfrenta gargalos logísticos”, afirmou Fernanda Pressinott, especialista em agronegócio.
Sem acesso regular à matéria-prima, indústrias que atuam na mistura e formulação de fertilizantes em território nacional já relatam paradas de linha. Embora o Brasil não seja grande produtor de fertilizantes primários, a etapa de blendagem — combinação de nutrientes para atender necessidades de cada cultura — é feita internamente, processo que depende do fornecimento constante de insumos.
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O encarecimento dos custos assusta. Desde o início da escalada de tensão, os valores de referência dos principais nutrientes agrícolas avançaram em torno de 200%. Pequenas reduções foram registradas em momentos de alívio no noticiário internacional, mas os preços seguem muito acima da média histórica.
O quadro do enxofre é ainda mais delicado. A menor queima de combustíveis fósseis — resultado de políticas de transição energética — reduziu a liberação de dióxido de enxofre na atmosfera, fonte tradicional de reaproveitamento do elemento. Paralelamente, a fabricação de baterias para veículos elétricos passou a disputar esse insumo com o agronegócio, diminuindo a disponibilidade global.
No campo, a combinação entre oferta restrita e valores elevados deve levar agricultores a reduzir a quantidade aplicada por hectare. A prática é vista como inevitável para suavizar o impacto nos custos de produção da próxima safra, mas traz efeitos negativos sobre a produtividade. Quanto menor o aporte de nutrientes, menor tende a ser o rendimento de culturas como soja, milho e algodão.
O reflexo para o consumidor é direto. Com volumes menores colhidos e custos maiores na lavoura, a expectativa é que os alimentos cheguem às prateleiras com preços elevados. “A próxima safra vai exigir mais investimento e, mesmo assim, entregará menores resultados. Essa conta inevitavelmente chega ao consumidor”, completou Pressinott.
Representantes da indústria nacional de fertilizantes mantêm diálogo com autoridades para buscar rotas alternativas de suprimento e agilizar desembaraços portuários. Contudo, enquanto a incerteza sobre a segurança na navegação pelo Estreito de Ormuz persistir, o setor avalia que o mercado continuará pressionado, exigindo planejamento logístico e financeiro reforçado de toda a cadeia produtiva.
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