Alessandro Caseri admitiu divergências entre seus depoimentos sobre a ação policial. Mensagens enviadas durante o episódio também levantam questionamentos sobre a versão inicial.
O inquérito que apura a abordagem da Polícia Militar ao carro de Fernando Haddad (PT) ganhou novos contornos depois de o motorista Alessandro Caseri prestar um segundo depoimento, na segunda-feira 17. O funcionário, que dirige para o candidato ao governo de São Paulo, admitiu diferenças em relação ao relato inicial sobre o episódio registrado na noite de terça-feira 11.
Mensagens de WhatsApp trocadas durante a suposta perseguição, reveladas posteriormente, mostram Caseri dizendo que era seguido por viaturas e que pretendia perguntar aos policiais o motivo da ação. Na conversa, ele afirma ter sido orientado a se afastar do próprio veículo. Cinco dias depois, imagens divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) exibem apenas o momento em que o carro é iluminado pelos faróis da PM; não há registro de o motorista ter saído do automóvel.
No depoimento formal, concedido na 2.ª Delegacia Seccional da zona sul, Caseri negou ter deixado o carro em qualquer momento. Ele compareceu acompanhado por seu advogado, Hélio Silveira, que confirmou a mudança de versão, mas sustentou que o cliente se sentiu intimidado.
“O carro foi acompanhado por essa viatura durante muito tempo, de uma forma um pouco ostensiva e intimidadora”, avaliou Fernando Haddad após ser informado do ocorrido.
Integrantes da equipe de campanha reforçaram que, quando o motorista escreveu “vou até eles perguntar o que está pegando”, acabou hesitando e permaneceu dentro do veículo. Ainda assim, Caseri sustenta que três policiais desceram armados e o teriam encurralado, algo não confirmado pelas câmeras da corporação — elas registram apenas até o limite do capô do carro de Haddad.
O governo estadual, responsável pelo material divulgado, afirma que a abordagem ocorreu dentro dos protocolos. A PM não se manifestou publicamente sobre as divergências apresentadas. O vídeo, de pouco mais de dois minutos, continua sob análise da Polícia Civil, que tenta esclarecer se houve abuso de autoridade ou falha de comunicação.
A controvérsia ganhou peso político porque Haddad foi ministro da Educação no governo Lula e disputa o Palácio dos Bandeirantes em um cenário polarizado. Históricos de tensão entre partidos de esquerda e as forças de segurança paulista já renderam debates na Assembleia Legislativa sobre treinamento policial e uso de câmeras corporais, tema retomado por opositores após o caso.
Especialistas ouvidos por juristas consultados pela reportagem apontam que contradições em depoimentos não implicam, por si só, cometimento de crime, mas podem comprometer a credibilidade de testemunhas. Como não houve indiciamento, a investigação permanece em fase preliminar. A expectativa é de que novas diligências incluam a coleta de imagens de câmeras de estabelecimentos próximos ao hotel onde o carro parou, além do laudo pericial nos rádios das viaturas.
A defesa do motorista requer acesso integral ao material de áudio e vídeo produzido pela PM, alegando direito à ampla defesa. O Ministério Público será notificado assim que a Polícia Civil concluir o relatório. Caso haja indícios de infração, o órgão decidirá se oferece denúncia ou arquiva o procedimento.
Até o momento, não há data definida para o encerramento das apurações. A campanha de Haddad monitora o desdobramento, avaliando que o episódio pode ser usado para questionar sua relação com a segurança pública, tema central na corrida ao governo paulista.
Com a eleição se aproximando, a expectativa é de que o caso siga repercutindo, pressionando tanto a cúpula da PM quanto os candidatos a apresentarem propostas concretas para abordagens policiais mais transparentes e seguras.

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