Em reunião com a Anfavea, Lula pressionou montadoras a usarem o Brasil como base de exportação para a América Latina. A proposta levanta dúvidas sobre quem realmente ganha com a estratégia.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira (14) que o governo federal e o setor produtivo precisam estabelecer uma atuação conjunta para que o Brasil amplie a presença no mercado internacional de veículos. A declaração foi feita durante reunião no Palácio do Planalto com executivos da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
Segundo o mandatário, multinacionais instaladas no país devem utilizar suas unidades locais como plataforma de exportação para a América Latina, em vez de abastecer a região diretamente das matrizes. Para Lula, a medida reforçaria a balança comercial, preservaria empregos domésticos e consolidaria o parque fabril nacional como polo regional de produção automotiva.
“As multinacionais podem simplesmente compreender que as exportações delas podem sair do Brasil. Não tem sentido, por exemplo, a Alemanha exportar para a América Latina. Quando a gente conseguir fazer isso, a gente vai conseguir ganhar mercado”, declarou.
O encontro foi solicitado pelo presidente da Anfavea, Igor Calvet, cujo objetivo central foi apresentar ao Palácio do Planalto os números recordes alcançados pelo setor em 2026. A entidade projeta chegar ao fim do ano com 3 milhões de emplacamentos — marca que não é registrada desde 2014. Para o empresariado, o bom desempenho doméstico cria cenário favorável a uma estratégia voltada a exportações.
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Lula recordou passagens de sua trajetória política e sindical ao comentar a relação histórica entre montadoras e trabalhadores. Disse já ter vivido “os dois lados” e destacou que, durante suas negociações como dirigente sindical no passado, encontrava ambiente mais previsível em empresas estrangeiras do que junto ao empresariado nacional.
“Eles traziam de lá uma experiência histórica de 100 anos de luta sindical. Era muito mais fácil para a gente se organizar na indústria automobilística”, observou o presidente.
Na avaliação do chefe do Executivo, a indústria automotiva continua sendo referência na interlocução entre capital e trabalho, por reunir cadeias produtivas extensas e alto grau de sindicalização. Ele apontou que ganhos de competitividade podem advir de novas tecnologias, mas ressaltou que, sem uma política comum entre governo, trabalhadores e empresas, o país perderá oportunidades estratégicas.
Calvet, por sua vez, reiterou interesse dos fabricantes em expandir a produção nacional voltada ao exterior, desde que haja segurança regulatória, acordos comerciais que reduzam tarifas e investimentos em infraestrutura logística. O dirigente afirmou que o diálogo com o Executivo é essencial para tornar esses critérios realidade.
Ao final do encontro, ficou acertada a criação de um grupo de trabalho entre Casa Civil, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e Anfavea para detalhar propostas voltadas ao incremento das exportações, incluindo possíveis incentivos tributários e estratégias de ampliação de acordos comerciais com países vizinhos.
Embora não tenham sido definidas metas concretas nesta primeira reunião, interlocutores do Planalto indicaram que novas rodadas de discussão serão agendadas nas próximas semanas, com vistas a apresentar resultados preliminares até o quarto trimestre de 2026.
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