Guerra derruba exportação de grãos da Ucrânia e ameaça mesa do brasileiro

Robson Alves
4 Min Leitura

Mísseis russos destruíram terminais portuários no Mar Negro e cortaram um terço da capacidade de embarque de grãos da Ucrânia. O impacto chega ao bolso do consumidor brasileiro com risco de alta nos preços de alimentos.

A guerra prolongada entre Rússia e Ucrânia voltou a atingir diretamente o comércio global de alimentos. Segundo relatório divulgado pela União dos Agricultores da Ucrânia (UAC), os mísseis e drones lançados por Moscou danificaram estruturas portuárias cruciais, fazendo com que o país perdesse cerca de um terço de sua capacidade de embarque de grãos a partir dos portos do Mar Negro.

Antes da intensificação dos bombardeios, os terminais de Odesa – principal corredor de escoamento agrícola do país – embarcavam em média 6 milhões de toneladas métricas por mês. Depois dos recentes ataques, o volume caiu para aproximadamente 4 milhões de toneladas mensais, patamar que ameaça o fluxo de caixa da economia ucraniana, ainda fortemente dependente de grãos e óleos vegetais para obtenção de divisas.

Publicidade

Os portos de Odesa continuam funcionando, mas sob risco crescente. A UAC observou que, se a pressão militar persistir e os reparos não ocorrerem, a infraestrutura poderá sofrer danos irreversíveis nos próximos meses. Além disso, fontes do setor relatam aumento dos custos de seguro e frete, pois armadores demonstram relutância em enviar navios à região.

“A Rússia começou a atacar sistematicamente a infraestrutura portuária, os terminais e toda a cadeia logística de transporte, utilizando repetidamente mísseis balísticos”, destacou o departamento de comércio da UAC.

“Atualmente, conseguimos embarcar, em média, cerca de 4 milhões de toneladas métricas de grãos por mês”, completou a entidade.

O Ministério da Economia da Ucrânia deveria realizar uma reunião nesta quarta-feira, 15/07, para analisar possíveis respostas e formas de reforçar a segurança nas instalações portuárias.

A relevância do tema vai além das fronteiras ucranianas. Nas últimas safras, o país respondeu por 6% das exportações globais de trigo e 11% das de milho. Prolongada, a queda de oferta tende a pressionar preços internacionais e ampliar a volatilidade dos mercados de commodities agrícolas.

Operacionalmente, os gargalos já se multiplicam. Dados da empresa estatal de ferrovias mostram recuo de 11% na quantidade de vagões carregados com grãos rumo aos portos entre 2 e 8 de julho, enquanto as exportações caíram 17% no mesmo intervalo.

A Kernel Holding, maior exportadora ucraniana, suspendeu temporariamente as atividades no porto de Chornomorsk após sucessivas explosões. Quatro dos 13 principais terminais de grãos também interromperam compras para formação de estoques, em movimento que afeta cooperativas e produtores rurais.

Para o analista Bohdan Kostetskyi, da consultoria Barva Invest, a destruição parcial de silos e armazéns provocou a perda de 2,5 milhões de toneladas de capacidade de estocagem mensal. Sem espaço, parte dos grãos não consegue ser redirecionada por rotas alternativas de exportação.

O cenário adiciona incerteza ao abastecimento global e reforça o impacto estratégico da infraestrutura logística em conflitos armados. Especialistas alertam que a janela para colheita e comercialização do milho ucraniano se aproxima, o que exigirá decisões rápidas do governo de Kiev e de seus parceiros internacionais para evitar novos estrangulamentos.

Publicidade
Compartilhe essa Notícia
Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.
Entre no Grupo de Notícias