Acusações de protecionismo da FIFA à seleção argentina voltam a inflamar redes sociais. O debate divide torcedores e analistas, que cobram provas concretas diante de denúncias que se repetem há décadas.
As discussões sobre um suposto protecionismo da Federação Internacional de Futebol (FIFA) a determinadas seleções voltam a ocupar espaço em redes sociais e mesas de bar. Desta vez, o foco está na Argentina, apontada por parte da torcida adversária como beneficiária de decisões de arbitragem recentes. Apesar da intensidade do debate, analistas lembram que acusações similares já miraram o Brasil em décadas passadas, sem que provas concretas fossem apresentadas.
Na década de 1990 e no início dos anos 2000, quando a Seleção Brasileira vivia uma fase de resultados expressivos, rivais latino-americanos e europeus falavam em tratamento diferenciado. As críticas se intensificaram na Copa de 2002, vencida pelo Brasil: italianos e alemães reclamaram publicamente de marcações de pênaltis e de eventual condescendência disciplinar. Mesmo em 2022, quase vinte anos depois, resgataram-se argumentos segundo os quais árbitros “amigos” teriam poupado cartões a jogadores brasileiros.
“O time que domina sempre vira o ‘protegido’ da FIFA”, afirma o entendimento recorrente entre torcedores de países rivais.
Especialistas em arbitragem observam, porém, que erros ocorrem de maneira distribuída e que a percepção de injustiça costuma crescer quando o lance favorece o oponente. A própria história recente do futebol mostra uma alternância de alvos: em 2006, a campeã Itália escutou acusações semelhantes; em 2010, foi a vez da Espanha; em 2014, a Alemanha; e, em 2018, a França de Kylian Mbappé.
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Para o comentarista esportivo Carlos Silveira, o conceito de “protecionismo sistêmico” carece de base objetiva. Segundo ele, a arbitragem, ainda que hoje conte com o suporte do árbitro de vídeo (VAR), não elimina decisões controversas, mas também não oferece indícios de conluio organizado. “São falhas humanas que, amplificadas pela rivalidade, ganham proporções de teoria conspiratória”, avalia.
Outro fator apontado é o peso comercial das grandes seleções. Patrocinadores e emissoras demonstram interesse em ver jogadores de renome avançarem em competições, circunstância que contribui para a narrativa de que a FIFA teria motivação mercadológica para favorecer certas equipes. Contudo, conforme lembra a economista do esporte Mariana Duarte, benefícios financeiros não se convertem automaticamente em interferência técnica: “A instituição pode lucrar mais com jogos de alto apelo, mas não há evidência de que isso se traduza em instruções diretas a árbitros”.
Até o momento, a entidade máxima do futebol mantém a posição de que críticas fazem parte do jogo e que suas comissões disciplinares e de arbitragem atuam com independência. Enquanto isso, a expectativa é de que a discussão continue, alimentada pela paixão que move o esporte. Afinal, como sintetiza o historiador João Faria, “vitórias frequentes em campo costumam provocar derrotas no tribunal da opinião pública”.
Sem provas definitivas, o debate permanece no campo da percepção. E, no futebol, a percepção de quem perdeu costuma falar mais alto do que qualquer estatística.
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