Fezes de 700 mil anos revelam segredos da megafauna ártica

Rafael Ramos
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Coprólitos fossilizados de esquilos descobertos no Canadá surpreendem cientistas: os animais consumiam carcaças de mamutes e baleias. A descoberta reescreve o que se sabia sobre a ecologia do Pleistoceno.

Restos fossilizados de fezes de esquilos terrestres, datados de aproximadamente 700 mil anos e recuperados na região de Yukon, no Canadá, permitiram a cientistas reconstruir aspectos inéditos da ecologia do Pleistoceno. O material, preservado em excelente estado, manteve DNA suficiente para revelar que esses pequenos mamíferos ingeriam tanto carniça de grandes animais — como mamutes-lanosos (Mammuthus primigenius) e baleias — quanto presas de menor porte.

Os 13 coprólitos analisados pertencem a esquilos do gênero Urocitellus, conhecidos por hibernar longos períodos em ambientes de clima rigoroso. A técnica empregada, chamada de DNA ambiental antigo (aeDNA), possibilitou identificar fragmentos genéticos não só dos próprios esquilos mas também de uma gama de espécies que compunham o ecossistema ártico na época. Segundo os autores, esse tipo de registro funciona como um complemento de alta resolução a fósseis convencionais de ossos ou sedimentos.

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“As amostras servem como um arquivo biológico de alta resolução”, destacaram os pesquisadores no artigo científico.

Todos os coprólitos exibiram sinais de DNA de mamute, indicando que a mega­fauna esteve presente de maneira consistente na dieta ou no ambiente dos esquilos. Os cientistas descartam, contudo, a hipótese de predação ativa sobre animais de grande porte. Em vez disso, defendem que os roedores atuavam como necrófagos oportunistas, aproveitando carcaças disponíveis, prática comum em distintos grupos de mamíferos.

Além de se alimentarem de restos de mamutes, morsas e baleias, esses esquilos mantinham uma dieta variada que incluía frutos, fungos e presas pequenas. Evidências de predação ativa registradas em outros estudos apontam captura de roedores, filhotes de lebres e ovos de aves passeriformes, além do consumo de diversos invertebrados. O acesso a fontes ricas em proteína e gordura teria sido crucial para o acúmulo de reservas energéticas necessárias à sobrevivência durante a hibernação.

Para a paleogenética, a descoberta de linhagens inéditas de esquilos aprofundou o entendimento sobre a diversificação desses animais no norte do planeta. Os dados sugerem que as populações ancestrais se adaptaram a oscilações climáticas extremas, mantendo estratégias alimentares flexíveis. Também foi possível traçar relações evolutivas entre os espécimes pleistocênicos e espécies modernas que ainda habitam a região boreal.

Os autores avaliam que estudos futuros poderão usar a mesma abordagem para mapear interações ecológicas em outras localidades do Ártico e de ambientes de alta latitude. Ao demonstrar que coprólitos são capazes de preservar ecossistemas inteiros em nível genético, o trabalho amplia as ferramentas disponíveis para reconstruir cenários paleoambientais e refinar modelos sobre extinção de megafauna.

Publicado em 25/06/2026, o artigo reforça a importância de coleções paleontológicas e de técnicas de sequenciamento avançado para desvendar a dinâmica de espécies já extintas. A descoberta, embora surpreenda pelo inusitado cardápio dos esquilos, também ressalta o papel desses pequenos mamíferos na cadeia alimentar de antigas paisagens árticas.

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Rafael Ramos é jornalista e gestor de comunicação com atuação em múltiplos portais de notícias em Sergipe. Apaixonado por política nacional e internacional, esportes e cultura, assina coberturas que unem rigor informativo e linguagem acessível ao leitor contemporâneo. À frente do R2 Media Group, dedica-se a levar informação de qualidade para o público sergipano e brasileiro.
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