A saída de recursos em agosto apagou quase todo o saldo positivo do trimestre anterior. A aversão também atingiu bonds e reforça a preocupação do mercado com o rumo fiscal e político.
O fluxo de capital estrangeiro para o mercado brasileiro de ações perdeu força de maneira acelerada em agosto. Dados da B3 indicaram retirada líquida de R$ 18,1 bilhões somente até o dia 14, valor que anulou praticamente todo o ingresso de recursos observado no trimestre anterior. No mesmo dia 14, o Ibovespa cedeu 0,1%, selando uma sequência de dez pregões negativos.
A pressão, contudo, não se limitou às ações. Títulos de dívida corporativa emitidos no exterior — os chamados bonds — também registraram desvalorização no mercado secundário. A analista Lucinda Pinto relatou que gestores com quem manteve contato confirmaram a piora nos preços desde 14/08.
“O que está acontecendo é que, além dessa saída toda de dinheiro da Bolsa, a gente está vendo uma piora também de preços, por exemplo, de bonds, que são os títulos de dívida emitidos pelas companhias no exterior”, afirmou.
Na avaliação da especialista, casos recentes envolvendo empresas como Raízen, Braskem e, mais recentemente, o pedido de recuperação judicial das Casas Bahia ampliaram a percepção de risco do investidor internacional sobre companhias brasileiras. A Raízen, classificada como high grade, iniciou um processo de reestruturação com venda de ativos após enfrentar dificuldades com sua dívida.
O pano de fundo, segundo Lucinda Pinto, é um cenário mais sombrio desenhado pelo mercado para 2027. A combinação de incerteza eleitoral — as eleições presidenciais estão previstas para outubro de 2026 —, falta de expectativas de ajuste fiscal robusto e manutenção de juros elevados por período prolongado reduziu o apetite ao risco.
“Eleição é uma dúvida muito grande, não tem sinais de que vai ter um ajuste fiscal suficiente para mudar a dinâmica da dívida do Brasil e, portanto, esse cenário de juros altos deve permanecer por mais tempo”, explicou.
Sinais de desaquecimento da atividade reforçam o pessimismo. O IBC-Br, indicador antecedente do PIB, já mostrou variação negativa, enquanto o Tesouro Nacional encontrou demanda limitada em leilão de títulos prefixados na quinta-feira anterior, movimentando apenas R$ 1 bilhão.
Mesmo papéis indexados ao IPCA com juro real próximo de 8% ao ano não convenceram os estrangeiros a alongar o prazo das aplicações. A preferência recaiu sobre títulos mais curtos, refletindo cautela com a trajetória fiscal e a rolagem da dívida pública.
Para além das fronteiras brasileiras, oportunidades em ações de tecnologia nos Estados Unidos e em emergentes com taxas igualmente altas, porém menor volatilidade política, tornam-se destinos alternativos.
“Para o investidor estrangeiro, no fim das contas, o problema é a imprevisibilidade. A palavra que eu tenho ouvido muito é desânimo”, relatou a analista.
Apesar da forte saída registrada em agosto, o saldo do ano ainda permaneceu levemente positivo, em R$ 18,2 bilhões. Se o ritmo de retiradas se prolongar — especialmente à medida que se aproxima o calendário eleitoral de 2026 —, o fluxo acumulado pode virar negativo.
O avanço ou não desse pessimismo dependerá de sinais concretos sobre responsabilidade fiscal, trajetória dos juros e confiança na condução da política econômica. Enquanto esses elementos não se firmarem, gestores internacionais tendem a manter recursos em caixa ou redirecioná-los para mercados considerados mais previsíveis.
Para o investidor local, o quadro é igualmente desafiador: pressão sobre as ações, aumento nos custos de captação das empresas e risco de aperto adicional no crédito corporativo. A depender do desenrolar dos próximos meses, 2027 — ano em que se inicia o próximo mandato presidencial — poderá encontrar ambiente financeiro mais restritivo que o previsto no início de 2026.
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