CPI dos EUA despenca 0,4% em junho e abre caminho para queda de juros

Robson Alves
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A inflação americana surpreendeu e recuou mais que o esperado em junho. O núcleo também entrou em deflação, sinalizando alívio que pode impactar diretamente o câmbio e o bolso do brasileiro.

A inflação ao consumidor nos Estados Unidos apresentou em junho a maior desaceleração dos últimos meses. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) recuou 0,4% no período, resultado inferior à estimativa de analistas, que esperavam queda de 0,1%. Em base anual, o CPI passou a acumular alta de 3,5%, também abaixo da previsão de 3,8%.

Ao comentar os dados, o economista Rafael Rondinelli destacou que o indicador de núcleo de inflação, que exclui itens mais voláteis como alimentos e energia, também mostrou sinal de deflação. O core CPI variou -0,02% em junho, frente à projeção de avanço de aproximadamente 0,2%.

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“Mais do que isso, o núcleo trouxe uma leitura de deflação, veio basicamente estável, menos 0,02%, e isso ficou muito abaixo do esperado pelo mercado”, avaliou o economista.

A queda foi influenciada principalmente pelo recuo nos preços de energia. Entretanto, Rondinelli chamou atenção para o comportamento dos serviços, setor que historicamente sustenta a inflação norte-americana. Educação, saúde e transporte registraram recuos, compondo um quadro de surpresa generalizada.

Mesmo com o resultado favorável, o especialista avaliou que ainda é prematuro concluir que o processo de desinflação ganhará tração. Segundo ele, o dado praticamente remove a possibilidade de elevação de juros na reunião de julho do Federal Reserve (Fed), mas não elimina totalmente a chance de aperto monetário mais adiante.

“Esse número afasta a hipótese de alta em julho, mas será preciso acompanhar novas leituras para saber se o banco central precisará subir juros no segundo semestre”, disse.

Rondinelli lembrou ainda que a retomada das tensões entre Estados Unidos e Irã voltou a pressionar o petróleo, fator que pode reacender riscos inflacionários. No horizonte de médio prazo, o economista acredita que a inflação tende a convergir para a meta de 2% traçada pelo Fed, embora em ritmo lento, dado o aquecimento persistente da economia e do mercado de trabalho.

Outro ponto de atenção citado na entrevista foi o impacto de grandes investimentos em inteligência artificial (IA). O setor demanda forte capacidade de processamento e maior consumo de energia, o que, segundo o economista, tem gerado pressões indiretas sobre os preços.

“Observamos que parte da inflação recente decorre do aumento de demanda provocado pelos investimentos em IA, efeito que chega ao consumidor de forma secundária”, explicou.

Rondinelli ressaltou que o ecossistema de IA é recente e sujeito a rápidas mudanças, razão pela qual recomenda cautela na elaboração de projeções de longo prazo. Apesar dos riscos, ele avalia que os fundamentos atuais fortalecem a percepção de que o Fed dispõe de espaço para manter os juros estáveis enquanto acompanha a evolução dos próximos indicadores.

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Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.
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