A PF apontou desvios em emendas de comissão com envolvimento de servidores do Legislativo. Hugo Motta prometeu esclarecimentos e defende que os repasses seguiram a lei.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou nesta terça-feira, 14/07/2026, que a Casa irá atuar para demonstrar a legalidade da destinação e da execução das emendas de comissão identificadas em investigação da Polícia Federal (PF). A declaração foi dada um dia após a PF apontar que parte dos recursos teria sido indicada por ex-parlamentares e que servidores do Legislativo teriam auxiliado na operação.
Em relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, os investigadores sustentaram que uma funcionária da Câmara gerenciava os repasses “com o aval de setores da Presidência da Casa”. A apuração também levou o ministro do STF Flávio Dino a determinar o bloqueio de bens do ex-deputado Eduardo Cunha e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, ambos suspeitos de participação no suposto desvio.
“Nós temos a convicção de que a Câmara está cumprindo a lei acerca da aplicabilidade da execução das emendas de comissão e nós vamos demonstrar isso dentro do processo, respeitando o devido processo legal e fazendo todos os esclarecimentos necessários”, declarou Motta.
Questionado pelos jornalistas sobre o teor do relatório da PF e a eventual responsabilidade de servidores, o presidente da Câmara evitou comentários detalhados.
“Não vou comentar. Não, eu não acho nada. Eu respondo pela Câmara dos Deputados, estou conversando com as lideranças”, limitou-se a dizer.
A existência de emendas apresentadas por deputados que já não exercem mandato chamou a atenção dos investigadores. Segundo a PF, o mecanismo teria permitido a direcionamento de recursos públicos sem o acompanhamento formal exigido para parlamentares no exercício do cargo. A suspeita é de que parte das verbas tenha sido desviada por meio de convênios com entidades privadas.
Dentro do Congresso, líderes partidários passaram o dia discutindo estratégias de reação. Aliados de Motta afirmaram que a Mesa Diretora prepara documentos para demonstrar que todos os procedimentos internos seguiram as regras orçamentárias vigentes. Já parlamentares da oposição defendem a criação de uma comissão externa para acompanhar o caso.
Flávio Dino, relator do inquérito no Supremo, determinou o bloqueio de contas bancárias e de ativos financeiros de Eduardo Cunha e Valdemar Costa Neto. A decisão — tomada a pedido da PF e da Procuradoria-Geral da República — visa garantir a possibilidade de ressarcimento aos cofres públicos caso as suspeitas de desvio se confirmem.
Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a investigação deve avançar sobre outros beneficiários das emendas questionadas. Eles destacam que o controle sobre emendas de comissão é menos rígido do que aquele aplicado às individuais e de bancada, o que pode ter facilitado irregularidades.
Até o momento, não há indícios formais de que o presidente da Câmara tenha participado da negociação dos repasses. Contudo, deputados governistas e oposicionistas esperam que Hugo Motta convoque uma reunião com todos os líderes para discutir a adoção de novos mecanismos de transparência e rastreabilidade das emendas.
O caso ocorre em meio às articulações para votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027. Nos bastidores, parlamentares admitem que a repercussão da investigação pode influenciar as negociações sobre o valor total destinado a emendas na próxima peça orçamentária.
Procurada, a assessoria da Câmara informou que eventuais esclarecimentos adicionais serão prestados somente nos autos do processo. A PF, por sua vez, segue realizando oitivas de servidores e análise de documentos fiscais relativos aos convênios suspeitos.
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