Uma aposentada de 86 anos precisou enfrentar motos, mesas de bar e caçambas em apenas um quarteirão. O relato escancarou o abandono das calçadas e a omissão do Estado diante de quem mais depende delas.
Um relato feito por uma aposentada de 86 anos expõe as dificuldades cotidianas enfrentadas por idosos, pessoas com mobilidade reduzida e pedestres em geral nas ruas dos grandes centros urbanos. O texto, divulgado em 14/07/2026, descreve o percurso de apenas um quarteirão percorrido pela senhora ao lado da filha: o suficiente para ilustrar como motocicletas, mesas de bares, caçambas de entulho e rampas improvisadas comprometem a segurança de quem depende da calçada para se locomover.
Segundo a autora, décadas de trabalho em pé, primeiro numa fábrica de costura e depois atrás do balcão de uma loja, não lhe tiraram a disposição de sair à rua. O que a desencoraja, afirma, é a sensação de que o espaço público foi privatizado por quem ocupa primeiro e raramente é responsabilizado. A cada desvio, ela acaba por pedir desculpas, mesmo sem ter causado o obstáculo.
“A calçada é que está errada, mãe”, lembra a filha, num dos trechos mais simbólicos do depoimento.
O percurso inclui uma moto estacionada sobre a faixa de pedestres, mesas de madeira que avançam pela calçada graças a um alvará, uma caçamba parcialmente bloqueando a passagem e um banco de praça com suporte de ferro solto, que chega a rasgar o vestido da idosa. Os constantes desvios e a necessidade de medir cada fresta fazem com que a caminhada, simples para muitos, se transforme em exercício de atenção permanente.
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Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que apenas 31% das calçadas das capitais brasileiras contam com acessibilidade mínima — piso regular, largura adequada e ausência de buracos ou obstáculos fixos. O Estatuto da Pessoa Idosa estabelece que a urbanização deve priorizar a circulação segura de quem tem mobilidade reduzida, mas a fiscalização municipal nem sempre consegue inibir infrações recorrentes.
Especialistas em mobilidade urbana ressaltam que os problemas citados — mesas de restaurantes sobre a faixa de pedestres, veículos estacionados em locais proibidos e entulho depositado irregularmente — são passíveis de multa. Mesmo assim, a precariedade persiste, resultado da combinação entre fiscalização insuficiente e baixa conscientização social.
Para a urbanista Rosângela Vieira, a situação relatada pela senhora de 86 anos não é isolada:
“Quando a calçada deixa de cumprir sua função, ela empurra o pedestre para o asfalto, onde o risco de atropelamento cresce exponencialmente”, explica.
Apesar do cansaço e da sensação de vergonha mencionada pela autora, o relato termina com a promessa de retornar no dia seguinte, após ter decorado mentalmente cada armadilha do trajeto. A persistência destaca a importância de políticas públicas voltadas à adaptação dos espaços urbanos, principalmente em um país que, segundo o IBGE, terá quase um terço da população com mais de 60 anos até 2050.
Enquanto o poder público não garante calçadas niveladas, fiscalização constante e educação para o trânsito, histórias como a da aposentada lançam luz sobre uma realidade ignorada por quem se locomove de carro ou moto. A cidade, conclui a narradora, também precisa aprender a envelhecer.
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