📰 Fonte: Foco no Esporte
Despedida que ultrapassa as quatro linhas
Quando Neymar deixou o gramado do AT&T Stadium, em Dallas, após a eliminação do Brasil nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026, o choro do camisa 10 ganhou as manchetes globais. No calor da comoção, dirigentes começaram a disputar – nos bastidores – o próximo destino do craque. Mas, longe dos holofotes internacionais, a aposentadoria do maior ídolo da Seleção neste século expôs, por contraste, um vazio estrutural: quem virá depois? A pergunta ecoa com ainda mais força em Sergipe, estado que insiste em sonhar com um representante na elite, mas mantém suas categorias de base à míngua.
O espelho sergipano: talentos dispersos, política desarticulada
Sergipe nunca levou um jogador nascido aqui para a Copa. A estatística embaraçosa esconde trajetórias precocemente interrompidas por falta de campo, de fisioterapeuta ou de alimentação adequada. Reportagem do República da Verdade obteve, via Lei de Acesso à Informação, o relatório de execução orçamentária da Secretaria de Estado do Esporte entre 2023 e 2025. Dos R$ 28,6 milhões aprovados para infraestrutura esportiva, apenas 41% saíram do papel. Num mesmo período, quase R$ 9 milhões em emendas parlamentares carimbadas para reformas de campos comunitários seguem bloqueados no Tesouro Estadual por “pendências de projeto”.
O resultado vê-se nos bairros de Aracaju: no Santa Maria, as traves do campo do Mutirão enferrujam; em Nossa Senhora do Socorro, o gramado da antiga Vila Olímpica virou matagal. No interior, a situação não difere. Em Lagarto, cidade que chegou a receber o Confiança para treinos antes da Série B de 2024, o pequeno Estádio Barretão teve reforma anunciada quatro vezes desde 2021 – nenhuma concluída.
Raio-X da promessa não cumprida
Em 2022, ainda candidato, o então deputado estadual Raul Nunes (PSD) prometeu implantar 20 escolinhas regionais financiadas pelo Fundo Estadual do Esporte. Eleito, mudou o discurso: “A prioridade agora é equilibrar as contas”, disse à nossa reportagem. Segundo dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE-SE), o fundo teve superávit de R$ 6,2 milhões em 2025, verba que acabou redirecionada para custeio da Arena Batistão.
Enquanto isso, o rendimento médio mensal dos treinadores de base em clubes sergipanos não chega a R$ 2.100, de acordo com levantamento do Sindicato dos Atletas Profissionais. A rotatividade espanta: 37% largam a profissão antes dos três anos de contrato. Sem técnico qualificado, não há metodologia – e sem metodologia, não há renovação à moda do Santos de Neymar ou do Barcelona que o projetou ao mundo.
Vozes de dentro do vestiário
“A Copa de 2026 provou que o Brasil precisa reinventar seu futebol. Mas sem políticas públicas, Sergipe continuará na plateia”, afirma a ex-jogadora e atual analista tática Fernanda Teles, de Itabaiana. O diretor do Confiança, Jorge Simões, também critica a paralisia: “Esperar que apareça um novo Neymar é fantasia. O que podemos ter é um laboratório regional, se houver vontade política.”
Procurado, o secretário estadual do Esporte, Luís Haddad, reconhece que 59% do orçamento de infraestrutura não foi empenhado. Alega “entraves burocráticos” e promete acelerar licitações até dezembro. Questionado sobre a repetição de prazos descumpridos, respondeu: “Estamos revendo o modelo de convênio.” Nenhum cronograma detalhado, contudo, foi apresentado.
Entre Dubai e Aracaju: a geografia da oportunidade
Enquanto especulações ligam Neymar a clubes sauditas, norte-americanos ou até a um retorno ao Santos, Sergipe assiste ao debate como mero expectador. A distância entre mega-salários internacionais e o subfinanciamento local desnuda a desigualdade do futebol global – e, no caso sergipano, evidencia escolhas políticas. Se recursos existem, por que não chegam às crianças que treinam descalças na areia do bairro América?
O que está em jogo para 2027
A Assembleia Legislativa discutirá em agosto a Proposta de Emenda Constitucional 12/2026, que cria o percentual mínimo de 1% da receita líquida do estado para formação esportiva. A PEC tem apoio transversal, mas enfrenta resistência do bloco governista, que prefere manter as verbas condicionadas a projetos específicos. O debate ganhou fôlego após a Copa: sem Neymar, a vitrine da transição escancarou o atraso nos bastidores.
Nenhum craque surge do nada – nem o menino de Mogi das Cruzes que conquistou o mundo, nem o jovem de Nossa Senhora das Dores que hoje pensa em largar o futebol pela falta de perspectiva. A comemoração ou a melancolia pelo futuro de Neymar interessa, claro, ao torcedor. Mas, para Sergipe, a questão crucial é outra: sem investimento contínuo, quantas despedidas precoces ainda testemunharemos antes mesmo de ver nosso primeiro mundialista em campo?
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